Teste – Changan Deepal S07: Mais um chinês elétrico

Grupo Changan Automobiles lança segunda marca em Portugal

Francisco Mota
Highlights
  • Deepal é a marca da Changan que aponta à Lexus da Toyota como um exemplo a seguir

A Auto Industrial é a responsável pela entrada de mais uma marca chinesa em Portugal. Trata-se da Changan que começa com o D-SUV Deepal S07, mas promete muito mais. Fique a saber tudo em mais um teste TARGA 67, conduzido por Francisco Mota e fotografado por João Apolinário.

Ao contrário de outras marcas chinesas que estão a entrar em Portugal, a Changan está longe de ser uma “start up”. Começou a fabricar automóveis em 1959, é o mais antigo fabricante de automóveis chinês e tem um estúdio de estilo em Turim desde 2001, onde este modelo foi desenhado. Já estão a vender automóveis em 103 países/regiões mas só recentemente começaram a expansão na Europa, estando para já em oito países. O seu lema é “Na Europa, para a Europa” e com isto querem dizer duas coisas: que pretendem vender automóveis adaptados às necessidades dos países europeus e que têm nos seus planos a abertura de uma fábrica nesta região, muito provavelmente em Espanha. Para já, têm um centro de peças e um “call center” na Europa.

Em Portugal, a Changan chega pela mão da Auto Industrial, um operador com muita experiência na distribuição e que entrou na importação de automóveis chineses há alguns meses com a Forthing, uma marca do mesmo grupo, que já passou pelo Primeiro Teste TARGA 67. O plano é disponibilizar 17 ponto de venda com oficina no nosso país, dos quais 14 são concessionários. O objetivo é atingir o quinto lugar nas vendas de EV em Portugal. Para isso, vão contar com o lançamento de oito modelos nos próximos três anos, entre elétricos e híbridos PHEV. Não admira que a Auto Industrial tenha criado uma unidade de trabalho exclusiva, a Changan Portugal.

Changan Automobile

Cabe aqui dizer que Changan Automobile é o nome da empresa estatal chinesa que fabrica automóveis para outras marcas, nomeadamente ocidentais e japonesas, além das suas próprias marcas, como a Forthing, Avtr e a Deepal, com a última a surgir na Europa associada à Changan para aumentar o reconhecimento do grupo e das marcas. Para os responsáveis do grupo, a Deepal tem como referência a Lexus.

O Changan Deepal S07 é um D-SUV com silhueta coupé e motorizações elétricas e híbridas, lançado na China em 2023, mas para Portugal só terá versões elétricas, pelo menos para já. Tem 4750 mm de comprimento e 2900 mm de distância entre-eixos, numa plataforma a que a marca chama EPA1, com suspensão MacPherson, na frente e multi-braço, atrás. A bateria NMC é de 79,97 KWh (75 KWh úteis) e é anunciada uma autonomia mista de 475 Km e 615 Km em cidade. O motor síncrono de ímanes tem 218 cv e 320 Nm, está montado atrás e move as rodas traseiras. Estes são os dados fundamentais tal como o preço de 44 990 Euros, com uma oferta de 1700 + IVA durante o lançamento.

Muito espaço

Com suspensão MacPherson, à frente e independente multibraço, atrás o Deepal S07 tem as bases para ser um D-SUV competente em termos dinâmicos, já vou confirmar isso mais à frente. Um detalhe interessante é que as portas não têm aros sobre os vidros, para acentuar a silhueta coupé, pois isso permite fazer um tejadilho mais esguio e baixo. A mala tem 510 litros, acesso fácil e nivelado com a boca de carga, mas não tem espaço sob o piso. Em compensação há um “frunk” sob o capót da frente com generosos 125 litros.

O habitáculo tem um tejadilho panorâmico em vidro, com cortina que ainda continua a ser a melhor solução para evitar o aquecimento do interior. Depois de acertar o banco da frente para a minha posição de condução não resisti a sentar-me de imediato atrás de mim próprio. O comprimento para as pernas na segunda fila é muito bom, o piso é liso e não é demasiado alto, permitindo às pernas irem bem apoiadas no assento, o que é raro nos elétricos. Nem falta espaço sob o banco da frente para os pés. Claro que dois passageiros vão melhor que três, pois o lugar do meio é mais estreito e a silhueta coupé aconselha algum cuidado com a cabeça, ao entrar e sair.

Minimalismo

Nos lugares da frente, há espaço suficiente em todas as direções, mas a consola central muito larga rouba um pouco de largura. A parte positiva é que, sob os cotovelos, há um bom cofre climatizado, ótimo para manter garrafas de água frescas. Os bancos têm ótimo aspeto, são confortáveis e têm suficiente suporte lateral. As portas abrem-se por dentro pressionando um botão elétrico.

Copiando o que a Tesla faz há bastante tempo, também aqui a regulação dos retrovisores se faz escolhendo essa opção no ecrã tátil central e depois pressionando o botão háptico multifunções do braço direito do volante. Muito pouco prático. Pelo contrário, a alavanca da transmissão é uma haste colocada à direita do volante, uma peça de origem Mercedes-Benz que é usada por vários construtores chineses e ainda bem, pois funciona de forma intuitiva.

Ecrã tátil móvel

O ecrã central tátil é móvel, não como os da BYD, que rodam da horizontal para a vertical. Neste caso, o ecrã vira na horizontal para o lado do condutor ou para o lado do passageiro da frente. Não é uma grande ideia, pois não existe um painel de instrumentos atrás do volante, apenas um “Head Up Display” com realidade aumentada. A arrumação das múltiplas funções pelas várias páginas do ecrã central não me pareceu a mais lógica em alguns casos, obrigando a desviar os olhos da estrada durante demasiado tempo, disparando o alerta sonoro de falta de atenção à estrada…

A perceção de qualidade no interior é boa, com uso de materiais de bom toque e com bom aspeto: muitos plásticos macios, imitação de pele com costuras e até efeito de madeira nas portas. O volante também tem algumas teclas físicas mas não tem patilhas para regular a intensidade da regeneração na desaceleração. Mas tem dois botões memorizáveis.

Erros de ortografia

Os modos de condução disponíveis são Eco/Comfort/Sport/Perso e só no último se abre um menu onde se pode regular a resposta do acelerador em dois níveis, assistência da direção, três níveis de regeneração (de 0 a 100% mas sem “one pedal”) e dois níveis de sensibilidade do travão. O ESC também se pode desligar. Pelo menos a regulação da regeneração devia ter um acesso direto, pois permitiria otimizar o uso da bateria. Outro detalhe que terá de ser revisto é a ortografia em português, que tem vários erros inadmissíveis. Por outro lado, tem comandos por gestos.

Em cidade, no habitáculo reina o silêncio, pois não há ruídos de rolamento ou de motor, bem filtrados pelos vidros laterais duplos nas portas da frente e para-brisas acústico. A suspensão está afinada para proporcionar um bom nível de conforto, com o contríbuto dos bancos e apesar dos pneus 255/45 R20 montados na unidade testada. Só mesmo em buracos mais pronunciados ou bandas sonoras mais altas se nota algum desconforto.

Condução suave

Como manda a lei, abaixo dos 30 km/h os elétricos têm que emitir um som para o exterior, para avisar os peões e ciclistas. Neste caso é uma música muito calma. Em modo Eco consegue-se a resposta mais suave do acelerador, perfeito para cidade onde é muito fácil dosear a força a transmitir às rodas de trás. Em modo normal, o pedal de travão não é muito progressivo, mas melhora em modo Sport. A direção não tem assistência excessiva mas também não tem grande tato. Boa visibilidade a partir de uma posição que não é muito alta.

Bons consumos

No nosso habitual teste de consumos TARGA 67, obtivemos um consumo em cidade de 16,3 KWh/100 km, em modo Eco e A/C desligado. Isto equivale a uma autonomia real em cidade de 479 Km. Em autoestrada, a 120 Km/h estabilizados e em modo Eco, o consumo foi de 18,1 KWh/100 km, o que corresponde a uma autonomia real em autoestrada de 442 Km.

A condução em autoestrada é muito estável e com poucos ruídos aerodinâmicos e a subida de consumo face à cidade não é muito grande. A velocidade máxima anunciada é de 180 Km/h. A bateria pode carregar até 11 KW AC e até 93 KW DC, neste caso demorando 48 minutos para ir dos 10% aos 80%.

Dinâmica competente

Com 218 cv e 320 Nm entregues às rodas de trás e possibilidade de desligar o ESC, não poderia deixar de testar o S07 numa estrada secundária com boas curvas e pouco trânsito. A aceleração 0-100 Km/h é anunciada em 7,9 segundos, mais que suficiente para este modelo e nada mau para um peso total de 2075 Kg. Mantendo o ESC ligado e entrando rápido em curva o S07 evita bem a subviragem, graças ao equipamento pneumático sobredotado; e depois mantém uma atitude bastante neutra, quando se reacelera a fundo na segunda metade da curva. Resultado também da distribuição de pesos 50/50 pelos dois eixos.

Repetindo o exercício com o ESC desligado, claro que pode aparecer um pouco de subviragem na entrada, mas pouca. Os travões com quatro discos têm potência e progressividade suficiente. A direção tem pouco tato, mas não é demasiado leve no modo Sport. A bateria sob o habitáculo mantém o Centro de Gravidade baixo e impede grandes inclinações laterais em curva. Desta vez, quando voltei a acelerar obtive um pouco de sobreviragem, que se nota mais em curvas de baixa velocidade do que nas mais rápidas. Um acerto de suspensão seguro e perfeitamente de acordo com a vocação familiar deste S07.

Conclusão

Há realmente algo de Lexus neste Deepal S07, sem ser uma cópia, no que isso tem de bom e menos bom. Em alguns aspetos, como o acerto dinâmico, ainda falta algum trabalho aos engenheiros da Changan, tal como em questões de ergonomia. Contudo, até pelo estilo ousado (com Cx de 0,258) o S07 é uma proposta que vale a pena considerar, para quem está à procura de um D-SUV elétrico.

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