
A MG, propriedade dos chineses da SAIC, mostrou um “concept-car” de um modelo para o segmento B premium, o MG Go! Francisco Mota em mais uma crónica à 6ª feira do TARGA 67, decidiu enredar-se na história do Rover Group para descobrir quem é o filho e quem é o bastardo: o MG Go! ou o Mini Cooper?
Quando o Rover Group faliu em 1994, a BMW apressou-se a comprar o espólio. Não tanto as históricas fábricas ou a antiquada maquinaria, muito menos as desesperadamente velhas plataformas ou motores. A única coisa com interesse que havia para comprar eram as marcas. Apesar de um histórico relevante, os últimos tempos do Rover Group, foram de grande sofrimento e de vários insucessos.
A BMW comprou o Rover Group em 1994 e ainda investiu bastante durante seis anos, aumentando muitíssimo a qualidade dos novos modelos, com destaque para o Rover 75, que usava tecnologia equiparada à do Série 3 da altura, mas com tração à frente. Os outros modelos, eram menos ambiciosos e usavam componentes de origem inglesa e também japonesa, estou a falar dos Rover 25 e Rover 45. A BMW ainda chegou a fazer versões MG do 75, o excelente MG ZT e ZT-T, no caso da carrinha; e também do Rover 45, o MG ZS. Os resultados comerciais não foram os melhores, para ser simpático.
Face a este panorama, a BMW decide vender o Rover Group em 2000, ficando apenas com as marcas Mini e um conjunto de marcas que há muito não tinham atividade, como a Riley, Triumph e Austin-Healey. A Land Rover foi comprada pela Ford Motor Company, a MG foi comprada pelo Phoenix Consortium, que formou o grupo MG Rover, pagando direitos à BMW pelo uso do nome Rover, que os alemães não venderam, numa primeira fase. A MG Rover durou pouco nas mãos da Phoenix e faliu em Abril de 2005. Três meses depois, os direitos da MG foram comprados em leilão pelo grupo chinês Nanjing Automobile. Em 2007, esta empresa fundiu-se com a SAIC Motor, que assim ficou com o controlo da MG, que rebatizou MG Motor. Ainda tentou fazer a montagem final dos novos automóveis na antiga fábrica de Longbridge, mas em 2016 passou tudo para a China, por óbvios motivos logísticos.
A apresentação do “concept-car” MG Go! no recente “Festival of Speed” de Goodwood está ligado ao regresso da produção à Europa, agendado para uma fábrica em Espanha, na Galiza, num investimento de 200 milhões de euros. Até aqui, tudo OK. As coisas complicam-se quando se olha para o MG Go!, que dará origem ao modelo de série MG2, sem grandes diferenças estéticas a não ser as rodas grandes e os apêndices aerodinâmicos exagerados. É que o MG2 é quase uma cópia do Mini Cooper.
O autor do estilo foi o eslovaco Jozef Kaban de 53 anos, que fez carreira no Grupo VW (VW, Audi, Seat, Skoda) tendo como principal “obra” o desenho exterior do Bugatti Veyron, quando tinha apenas 25 anos. Depois foi para o Grupo BMW, liderando entre 2017 e 2019 o estilo da BMW e Rolls Royce. Voltou à VW em 2020 e assumiu o cargo de Vice-Presidente global de design no grupo chinês SAIC em 2024.

É Kaban que afirma não ter copiado os faróis redondos, a frente curta, o desenho da zona vidrada e o formato retangular das luzes traseiras do Mini Cooper, afirmando que no passado havia muitos carros ingleses com esse tipo de “detalhes” incluindo o tejadilho pintado de outra cor e pilares em preto.
É fácil de perceber que Kaban diga isso, mais difícil é pensar que ele acredita no que diz. A semelhança é excessiva, para que o futuro MG2 não seja visto como uma cópia desajeitada do Mini Cooper, ao estilo da excelente escola de cópias da China. Vamos ver quantos anos o eslovaco se vai aguentar nesta posição, depois deste “tiro no pé” que põe em causa uma carreira tão longa e prestigiada. Acredito mais facilmente que Kaban tenha recebido uma simples “ordem” da administração para fazer “o Mini da MG” e que não tenha tido condições de dizer não, sem ser demitido.
Em face desta situação, alguns defensores da MG vieram colocar em causa quem é hoje o legítimo proprietário dos direitos da Mini, em termos morais e históricos, não em termos de negócio, que isso ninguém contesta ser a BMW, como é óbvio.
O primeiro Mini foi apresentado pela BMC (British Motor Corporation) a 26 de Agosto de 1959 em simultâneo sob duas marcas: Austin e Morris. As diferenças entre o Austin Seven e o Morris Mini-Minor estavam no emblema e pouco mais.
Hoje, a detentora dos direitos da Austin é a SAIC, pois a marca vinha no pacote do Rover Group juntamente com a MG e com a Morris. Ou seja, do ponto de vista histórico, o Mini-Minor original deriva de uma marca que hoje é propriedade da SAIC, seja ela a Austin ou a Morris. Mas, curiosamente, a marca Mini seguiu outro caminho.
Em 1969, a Mini deixou de ser apenas a designação de um modelo da Morris e passou a ser uma marca. O Mini Cooper foi o primeiro modelo a prescindir das marcas Austin e Morris. Após passar por várias empresas, a marca Mini acabou por incluir o negócio da compra do Rover Group pela BMW em 1994 e, quando vendeu o grupo em 2001, o grupo alemão reteve a marca Mini.

Ou seja, além de ter comprado a marca Mini, sendo hoje sua por direito, assim como a MG pertence à SAIC, a BMW tem ainda a validação histórica de usá-la de acordo com o seu nascimento como marca independente e não como parte do nome de um modelo. Pode dizer-se que tanto a BMW como a SAIC têm uma parte de razão nesta disputa. Mas a BMW tem uma parte bem maior de razão.
Até para a semana!
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