São 60 jurados de 23 países da Europa que vão escolher pela 63ª vez o The Car Of The Year (COTY). Os 7 finalistas para a edição de 2026 já foram escolhidos e os testes continuam em cada país. Francisco Mota, um dos dois jurados portugueses, esteve no teste oficial dos finalistas para tentar descobrir alguns “segredos”.

É o tradicional evento que reúne anualmente todos os jurados e as marcas que chegam ao grupo dos sete finalistas. As marcas levam o máximo de versões e motorizações possíveis para que todos possam ter a oportunidade de testar mais uma vez os finalistas, depois de a maioria já os ter testado nos seus países. Mesmo se o objetivo não é comparar os finalistas entre si – pois isso não faz sentido quando se posicionam em segmentos diferentes – é sempre uma boa oportunidade de testar várias versões em pouco tempo e ficar a conhecer melhor a gama de cada modelo.

Este ano, o teste dos finalistas decorreu na região de Barcelona. Depois de, no ano passado, termos feito o evento em Bruxelas e num circuito perto. Mas os testes tiveram que ser anulados, devido a um nevão que fez desaparecer a pista debaixo de meio palmo de neve. Em Barcelona usámos o circuito de Castelloli, uma pista de desenvolvimento ao serviço da indústria automóvel, não uma pista de corridas. Tem curvas muito variadas e serve bem para o efeito, além de estar numa região do globo e a uma altitude em que a neve é improvável. Tivemos chuva, como quase sempre temos, mas isso acaba por servir para poder descobrir algumas insuficiências dinâmicas.
Barcelona “here we go!”
Tão boas como a pista são as estradas secundárias em redor, com traçados muito sinuosos, em vários tipos de piso e praticamente sem trânsito nenhum. Em meia hora é possível ficar com uma boa ideia do que vale cada finalista. Eu fiz mais do que isso, pois concentrei-me nos modelos em que tinha feito menos quilómetros até agora, nomeadamente no Skoda Elroq, no Mercedes-Benz CLA (quem ainda não tinha guiado de todo) e no Kia EV4 GT. Deste último só vou poder escrever mais tarde pois, para o poder testar, tive que assinar um acordo de confidencialidade até uma data que ainda estamos a negociar com a Kia. Em breve irei publicar os testes de cada um deles aqui no TARGA 67.

Neste evento marcam presença também os representantes das sete marcas, que têm direito a fazer uma apresentação de 15 minutos para o júri, com o conteúdo que acharem mais interessante para nos convencerem a votar no seu modelo. Claro que temos tantos anos de experiência que não somos uma audiência facilmente impressionável. Mas posso dizer que uma das marcas se deu ao trabalho de fazer uma maquete 1:1 de uma variante desportiva do seu carro e levá-la para Barcelona. Obviamente que também não posso avançar detalhes, pois nem sequer está decidido se essa versão será feita.
Quinze minutos e é tudo!
Outras marcas foram mais descontraídas no anúncio de estratégias para o presente e para o futuro de que aqui vou fazer um resumo muito rápido pela ordem sorteada das apresentações a que assisti. A sessão de perguntas e respostas no final também serviu para tirar dúvidas. Aqui ficam algumas das notícias que ouvi neste teste conjunto.

FIAT Grande Panda
A FIAT defendeu o Grande Panda com uma frase filosófica: “o homem tem o direito não só de existir mas de viver”. Isto para dizer que o seu B-SUV multi-energias cumpre as tarefas do dia-a-dia mas transmitindo algo mais aos seus utilizadores. Disse também que o estilo não é nostálgico (andamos todos equivocados…) mas que se “inspira no passado para se projetar no futuro”. Depois avançou com números, dizendo que a versão “mild híbrid” já foi o 2º carro mais vendido em Itália nos últimos três meses e que o 100% elétrico representa 22% da produção até agora. O resto são o “mild hybrid” e o 1.2 a gasolina de 100 cv, o mais barato da gama. Para já não há versão bi-fuel GPL/gasolina, mas garantiram que estão a trabalhar no assunto. Não admira, dados os excelentes resultados que essa versão está a ter na Dacia. Respondendo a uma pergunta, acabaram por confirmar que a versão 4×4 vai mesmo ser lançada e que usa um sistema híbrido, não será o 100% elétrico.

Renault 4 E-Tech Electric
A Renault venceu o The Car Of The Year nos dois últimos anos, uma façanha que só o grupo FIAT tinha conseguido no passado. Avançaram primeiro com números: já fabricaram 24 000 Renault 4 E-Tech Electric. Garantiram que a estratégia de manter uma linha de elétricos com desenho nostálgico e uma linha de modelos híbridos a gasolina com estilo mais vanguardista é para manter. O atual crescimento de ambas as linhas dá-lhes razão. Dizem ainda que a média WLTP de emissões da marca é de 80g CO2/Km, a melhor entre os construtores generalistas. Tal como o R4 original, também o elétrico terá uma versão comercial e dizem que “estão a trabalhar” numa versão 4×4 que terá de ser 100% elétrica, pois a plataforma não é compatível com motores a gasolina. Quanto ao futuro do estilo nostálgico, depois do Twingo, ouvi nomes como R8 Gordini e Espace e voltei a ouvir o mote da marca de há umas décadas “voiture a vivre”. Importante: a nostalgia não se foi embora no bolso de Luca de Meo, é uma maneira de combater a invasão chinesa, feita de carros muito parecidos e sem os 125 anos de história da marca francesa.

Dacia Bigster
O Grupo Renault, tal como a Stellantis têm duas marcas nos finalistas. No caso dos franceses a Dacia foi escolhida pelo júri através do novo Bigster, uma versão mais comprida do Duster, que também chegou aos finalistas no ano passado. A Dacia coloca o Bigster no segmento C-SUV confirmando que em nove meses já vendeu 74 000 unidades, sendo a primeira marca do segmento C-SUV na Alemanha. Alguns números interessantes: 69% dos compradores repetem, após comprarem o primeiro Dacia. Por outro lado, a taxa de conquista (compradores que nunca tinham tido um Dacia) é de uns impressionantes 75% das vendas. Já não se considera marca “low cost” mas “value for money”. Talvez a grande notícia seja que, no próximo ano, o Spring vai ter um sucessor a que se vão seguir mais quatro elétricos nos próximos cinco anos.

Mercedes-Benz CLA
A Mercedes-Benz venceu o The Car Of The Year em 1974, com o Classe S da altura, no mesmo ano em que ocorreu a crise do petróleo. Não sei onde é que os meus colegas de então estavam com a cabeça… Este ano a marca da estrela conseguiu chegar aos finalistas com um carro muito mais adaptado aos tempos que correm, o CLA. Para guiarmos neste teste final, a marca só levou versões elétricas, deixando os híbridos em casa por questões logísticas. Dos sete finalistas é o único que se pode dizer ter quase tudo novo: da plataforma, aos motores e bateria, passando pelos interiores e desenho exterior com um Cx de 0,21. A arquitetura de 800 Volt e a caixa de duas velocidades são argumentos inéditos no segmento. Um projeto que vai influenciar muitos outros modelos mas que continua a ter uma plataforma multi-energias, a Mercedes-Benz não põe os ovos todos no mesmo cesto!

Citroën C5 Aircross
Na intervenção da Citroën ficou bem claro que a produção do C5 Aircross em França (Rennes) é um ponto importante para a marca. Há também uma tendência para trazer de volta à marca o fabrico de peças que eram feitas por fornecedores exteriores, como por exemplo os pára-choques. Houve uma descida de custos face à anterior geração, nomeadamente com a simplificação de opções. Por exemplo, o banco traseiro era separado em três bancos mas agora passa a ser um banco corrido, com rebatimento apenas das costas. Também a utilização de materiais mais simples no interior é admitida. Do ponto de vista da fábrica, estão a re-utilizar robots antigos, agora comandados por inteligência artificial. A revolta das máquinas estará para próximo?…

Skoda Elroq
A Skoda chegou aqui com o Elroq e as suas versões exclusivamente elétricas. Duas afirmações importantes: apesar de serem próximos em termos de tamanho, o Elroq não está a tirar vendas ao mais velho Enyaq, ambos estão a subir nas vendas. No caso do Elroq há 140 000 encomendas e 80 000 entregas. Outro dado interessante é a paridade de preços entre o Elroq e o Karoq. Para o futuro, a Skoda anuncia mais elétricos: o pequeno Epiq e um SUV de 7 lugares, em 2026 e depois a entrada nas carrinhas elétricas de que o recente “concept-car” Vision O mostra alguns caminhos possíveis.

Skoda Elroq
Finalmente, o sorteio determinou que a última apresentação fosse a da Kia, para defender o EV4. Desenhado, desenvolvido e produzido na Europa, a versão hatchback é um puro elétrico, destinado a um universo de 45% de compradores do segmento que ainda não compram SUV. Mais do que ter a maior autonomia do segmento, que a Kia reclama ter, a marca mostrou a curva de carregamento, plana e alta durante muito tempo, o que faz diminuir o tempo de espera. A marca sul-coreana sublinhava os testes de alta velocidade que fez no Nürburgring, para o seu modelo 100% elétrico ficar ao gosto europeu. O expoente máximo é a versão GT, que guiei mas de que não posso falar neste momento. É pena…
Conclusão
Enfim, foi mais um dia de recolha de informação, não só durante as sessões de esclarecimento das marcas, mas também em momentos mais informais durante os testes. Depois de digerir tudo isto, vou ter que formar a minha votação até dia 29 de Dezembro. Mas a cerimónia de entrega do prémio será feita apenas no dia 9 de Janeiro, durante a abertura do salão internacional de Bruxelas.
Ler também, seguindo o link: Renault 5 E-Tech vence The Car Of The Year 2025
