É impossível estar ao lado do novo Renault Twingo E-Tech Electric sem esboçar um grande sorriso, quase tão grande como o deste citadino com cara de sapo. Francisco Mota esteve em Paris para o conhecer em detalhe e saber quanto vai custar em Portugal.
Na trilogia de modelos elétricos nostálgicos da Renault, o Twingo surge agora na sua versão final, depois do R5 e do R4. Todos foram aprovados pelo anterior CEO Luca De Meo e todos partilham a mesma plataforma, herdada e transformada do Renault Mégane E-Tech Electric, que só teve direito a nostalgia no nome. Pelo contrário, o Twingo está carregado de detalhes que me fazem lembrar um certo dia de 1993, na ilha de Lanzarote.
Mini-monovolume

A Renault escolheu a paisagem pós-vulcânica da ilha para a apresentação à imprensa do seu mais recente citadino, o Twingo I, que juntava os nomes de três danças: twist, swing e tango. O modelo encaixava no então diversificado segmento A, diferenciando-se pelo seu estilo único de mini-monovolume, uma tendência que então era tão ou mais forte do que é hoje a dos SUV. O desenho tem dois autores, Jean-Pierre Ploué fez um primeiro esboço que definia as principais proporções, o seu chefe Patrick Le Quément alongou a distância entre-eixos, colocando as rodas nos extremos e criou a face sorridente com os olhos de sapo.

Essa arquitetura permitia um aproveitamento de espaço único, desde logo com o deslizamento do banco traseiro a permitir otimizar o comprimento para os dois ocupantes da segunda fila. Dizia a Renault que, rebatendo os dois bancos da frente se conseguia obter uma cama de casal. Com o tejadilho de lona aberto era como dormir ao relento, afirmava a publicidade da marca francesa, apelando a um certo romantismo low-cost.
Ultra racional

Mas o Twingo era também um automóvel ultra racional, no que à construção dizia respeito. Pensado para substituir o Renault 4, o Twingo utilizada o máximo de componentes de outros modelos da marca, a começar pelo único motor disponível, o antigo quatro cilindros de 1.2 litros usado pela última geração do R4. A plataforma era uma versão simplificada da usada pelo Supercinco, com arquitetura MacPherson, na frente e eixos de torção, atrás. Jantes de aço, e pneus de medida única e muitas outras soluções baratas.
De 3 a 5 portas

Só disponível em três portas, os fechos exteriores eram gatilhos escondidos na espessura das portas, nem havia botão para abrir o portão por fora, tinha que se usar a chave. A antena estava montada no suporte do retrovisor do lado do condutor, para poupar a montagem no tejadilho e usar menos cabo elétrico. Também só este retrovisor tinha regulação manual, por alavanca, do interior. Só havia quatro cores disponíveis: azul, amarelo, verde e vermelho.
Versatilidade

Por dentro, também só existia um nível de equipamento, com botões verdes e sem painel de instrumentos clássico. Em vez disso um pequeno display eletrónico com a velocidade ao centro. Volante de dois braços e um máximo de comandos aglomerados no centro da consola. No meio do tablier, sob o para-brisas, lá estava a bola vermelha semi encaixada num buraco, a fazer de botão dos quatro piscas. A simplicidade levava a um peso total de 790 Kg, que também contribuía para menor desgaste de consumíveis e manutenção mais barata.

Voltando ao tal dia de 1993 em Lanzarote, o estilo dos multicolores Twingos a circular na paisagem de lava seca e negra dava um contraste que nem exigia um grande fotógrafo para obter boas imagens nas máquinas de rolos que se usavam na altura. Ainda guardo as minhas (não sei onde…) com orgulho. Mas a missão desse dia, como muitos ao longo dos anos, era guiar o Twingo e depois transmitir por palavras todas as sensações aos leitores.
Citadino puro

Algumas ainda não me esqueci delas. Para dizer a verdade, o modernismo do exterior e interior contrastava com uma condução um pouco rude. Direção sem assistência, pneus muito estreitos e suspensão com pouca resistência ao rolamento em curva não serviam os meus ímpetos de jovem jornalista de automóveis, sempre à procura do ângulo “desportivo” de qualquer carro. Mas o Twingo era apenas um citadino calmo e razoavelmente confortável. O motor C3G de 1239 cc tinha 55 cv, pouca força a baixos regimes e perdia o fôlego nos mais altos, valia-lhe uma caixa de cinco relações com quatro curtas.

Mais de trinta anos depois, a Renault volta ao primeiro Twingo, deixando nos livros de história a segunda e terceira gerações. A primeira foi claramente a mais original e vendeu 2,6 milhões de unidades até 2012, nos cinco último anos a produção só continuou na Colômbia.
Tinha que ser EV


Muito maior
A quarta geração é proposta apenas com carroçaria de cinco portas e apenas em versão elétrica. As cores de lançamento são também as mesmas quatro, mas com tons completamente diferentes e o nível de equipamento do interior deixou claramente de ser low-cost, existindo duas opções, Evolution e Techno, muito bem recheadas.

O desenho foi feito sob a direção de Gilles Vidal, antes deste estilista voltar para a Stellantis de onde tinha vindo há uns anos. É uma reinterpretação muito próxima do Twingo original, adaptado às dimensões de hoje. Em vez dos mínimos 2345 mm de comprimento do original, tem 3790 mm; em vez de 2345 mm de distância entre-eixos tem 2493 mm.
Plataforma AmpR
A plataforma AmpR Small usa uma variante da conhecida do R5 E-Tech Electric, mas com suspensão traseira de barra de torção em vez de independente. Mas tudo o que não se vê é herdado do R5 e R4. A bateria com química LFP tem 27,5 KWh de capacidade útil e autonomia anunciada de 263 Km. Por isso, e porque já passaram três décadas de desenvolvimento em todas as áreas, o novo Twingo pesa 1200 Kg, 1,5 vezes mais que o original. A bateria pode ser carregada a 6,6 KW AC, de série ou a 50 KW DC e a 11 KW AC, em opção.

A Renault anuncia uma velocidade máxima limitada a 130 Km, para não gastar demasiado em autoestrada. O motor dianteiro transversal passa 82 cv (60 KW) às rodas da frente e arranca com 175 Nm. A Renault anuncia os 0-100 Km/h em 12,1 segundos e existe a função “one pedal” para a regeneração.
A bordo

Ainda sem hipótese de o guiar, pude ainda assim observar de perto o interior e até comparar com um Twingo original do museu da Renault. Da comparação tratam as fotos, mas sentado a bordo do novo Twingo, a sensação de que não lhe falta nada é a primeira.

Muito boa posição de condução e um tablier com um desenho próprio, incluindo um painel de instrumentos simples e fácil de ler e um ecrã central tátil destacado do tablier, deixando de fora os enormes botões redondos da climatização com um igualmente grande botão vermelho dos quatro piscas a evocar o original.
Boa versatilidade

A consola é simples e baixa com porta-objetos abertos. O volante é o mesmo dos E-Tech Electric da Renault, quase quadrado mas com boa pega e a alavanca da transmissão está destacada à direita na coluna de direção.

Os bancos da frente pareceram confortáveis mas com pouco apoio lateral. Já os de trás são individualmente deslizantes em 16 cm no comprimento o que acrescenta versatilidade, fazendo variar a capacidade da mala entre 305 e 360 litros. Os vidros das portas de trás só abrem em compasso.

Os materiais são quase todos de toque duro, existindo aplicações metálicas na cor da carroçaria, evocando as portas com partes sem revestimento plástico do Twingo original.

Conclusão
Entre aquele dia de 1993 e este de 2025 muita coisa mudou no Renault Twingo. Desde logo um posicionamento muito mais “chique”, mas com prestações que não se sobrepõem às do R5 E-Tech Electric. É uma maneira de fazer reviver o segmento A, para clientes que querem automóveis pequenos, acessíveis, mas não desprovidos dos equipamentos a que se foram habituando. Espero com curiosidade o momento de o guiar. Enquanto isso não acontece vou cantando a música de 1980 da pequena Maria Armanda: “Eu vi um sapo… um grande sapo!”
Ver também seguindo o LINK: Primeiro teste – Renault Twingo Electric: o mais barato dos elétricos
